Filhos da França e filhos da África

A França é a grande campeã mundial de 2018. Não deu aquele show que todo mundo esperava, tendo em vista o excelente do qual dispunha no papel, porém tinha virtudes extremamente admiráveis: era mentalmente saudável e era cirúrgica ao atacar, sem precisar pressionar os adversários o tempo todo. Tão letal quanto uma serpente. A eficiência demonstrada nas defesas de Hugo Lloris, na segurança defensiva de Benjamin Pavard, Lucas Hernández, Raphaël Varane e Samuel Umtiti, no futebol explosivo de Paul Pogba, na disciplina de N’Golo Kanté e Blaise Matuidi, no cérebro de Antoine Griezmann, no pivô de Olivier Giroud, no talento de Kylian Mbappé e, enfim, nas potencialidades do grupo comandado pelo icônico Didier Deschamps trouxe a segunda estrela para os franceses.

A primeira conquista, lá em 1998, veio em casa, contra a seleção mais poderosa do planeta, o Brasil. O segundo título se confirmou neste domingo (15), em um triunfo igualmente incontestável contra o time mais aguerrido desta edição, a encardida Croácia, que superara duas disputas de pênaltis e três prorrogações para chegar à decisão. Se Napoleão Bonaparte não teve sucesso em terras russas no século XIX, a história com o time de Deschamps, campeão como jogador na época da primeira estrela, foi muito diferente no século XXI.

Enquanto os Bleus festejavam a vitória, muito se falou que “o título da França é da África”. Até que ponto isto é verdade?

De fato, 19 jogadores da delegação são descendentes de imigrantes que buscaram melhores condições de vida no país europeu. Destes, 15 têm ascendência africana, sobretudo das antigas colônias francesas no continente onde surgiu a humanidade. Entre os jogadores que vão carregar para sempre o status de campeão do mundo há sangue guineense, malinês, marfinense, marroquino, camaronês, argelino, senegalês, congolês, nigeriano, togolês, angolano, haitiano, alemão, português, espanhol e italiano, sejam eles transmitidos pelos pais ou pelos avós. Os territórios ultramarinos franceses de Guadalupe e Martinica também se fazem presentes na convocação. Portanto, a França é um país miscigenado e este fato social se reflete na equipe nacional. Contudo, vale reforçar que toda esta mistura não é recente, como mostra esta excelente reportagem no portal Trivela.

Zidane 1998
O atacante Zinedine Zidane, descendente de argelinos e maior jogador francês da História, ergue a primeira taça mundial da França, em 1998 (Getty Images)

Por outro lado, precisamos observar a seguinte questão: vocês já pararam para pensar no tanto que essas pessoas batalharam, quiçá ainda batalham, para se afirmar como franceses? Na luta que travaram, quiçá ainda travam, com a xenofobia e o ultranacionalismo, sentimentos os quais já fizeram Le Pen, o grande nome da extrema-direita francesa, implicar que “os descendentes de imigrantes não cantam a plenos pulmões o hino nacional”? Já imaginaram o tanto de pessoas, principalmente crianças, que se sentem identificadas com um francês que já esteve na situação financeira delas e hoje é um orgulho nacional?

Falar que “o título da França é da África” pode ser uma exaltação ao continente de onde vieram os familiares da grande maioria do plantel, mas também pode insinuar que, mesmo tendo levado o país ao topo do mundo, estes jogadores não são franceses o suficiente. Jamais pode se negar o gentílico dos antepassados, mas o caráter de reafirmação e pertencimento destes atletas à nação onde eles mesmos nasceram ou foram acolhidos também deve ser levado em conta. Neste sentido, não há exemplo mais ilustrativo do que a resposta do lateral-esquerdo Benjamin Mendy, no Twitter, a uma publicação do portal Sporf.

(Reprodução/Twitter)

O goleiro reserva Steve Mandanda e o zagueiro Samuel Umtiti, que nasceram na República Democrática do Congo e em Camarões, respectivamente, e cujas famílias se mudaram à França quando eles ainda eram crianças, não são menos franceses do que o atacante Florian Thauvin, que nasceu na França e tem antepassados franceses. Paul Pogba, cujos familiares são da Guiné, N’Golo Kanté, com sangue do Mali correndo pelas veias, e Kylian Mbappé, de ascendências da Argélia e de Camarões, não são menos franceses do que o técnico Didier Deschamps, de mesma situação de Florian Thauvin.

No contexto apresentado, o debate sobre imigração é super válido e necessário, ao mesmo tempo em que se deve levar em conta o quão importantes os imigrantes e seus descendentes são para a França, de modo a não deturpar a identidade nacional de quem leva o nome do país aos quatro cantos do mundo. Esta lição vale para qualquer nação e para todos nós.

 

Crédito da foto principal: Valery Sharifulin/TASS/Getty Images

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