#ACERVO2L – Més que un club: O FC Barcelona e a identidade catalã

“Imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”, parafraseando o sucesso Nordeste Independente composto por Bráulio Tavares, que ficou marcado na voz de Elba Ramalho, começamos a análise desta semana do #Acervo2L.

Como seria ser uma nação com cultura, idioma e elementos étnicos próprios sendo obrigado a se submeter ao país que domina o território onde se está instalado? Esse cenário nos parece cada vez mais distante no século atual, mesmo sendo marcados por um passado de exploração colonial, como foi o caso brasileiro.

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Foto: Representação da Catalunha no mapa da Espanha /Wikipédia

A descrição acima representa o sentimento de parte da população da região autônoma da Catalunha, localizada no nordeste do território espanhol, que no ano de 2017, se declarou independente da Espanha, processo que acabou sufocado pelo governo central de Madrid e que culminou com a prisão do primeiro-ministro catalão, Carles Pouidgemont.

O processo de luta pela independência

A primeira experiência independente da região ocorreu durante a ocupação moura na península ibérica entre os séculos XI e XIII. Este período foi marcado por um amplo desenvolvimento urbano e econômico do condado da Catalunha e, em especial do seu entreposto comercial, Barcelona.

Com a unificação espanhola com o casamento dos reis cristãos Isabel e Fernando, no século XV, os catalães perderam bastante em capacidade de influência em comparação com a nova capital, Madrid. Após mais de 200 anos de subjugação, os catalães se revoltaram contra o Império Colonial Espanhol aproveitando-se da participação do exército do imperador em conflito contra a França. Com a vitória, a Catalunha viveu mais um período de independência entre 1640 e 1652, sob a tutela francesa.

Após a retomada do controle do condado pelas forças do Império Espanhol, o clima entre os povos se tornou ainda mais acirrado. O ápice desta tensão se deu durante a Guerra de Sucessão Espanhola, no inicio do século 18, na qual, Bourbons e Habsburgos brigavam para ver quem teria o domínio da Espanha. Os catalães apoiaram os Habsburgos e os madrilhenos ficaram com os Bourbons, que venceram o conflito. Com a derrota, um castigo severo foi imposto para os rebeldes de Barcelona. O Parlamento foi suprimido, o uso do catalão pelos funcionários do Estado na região foi abolido, e o sistema legal autónomo do resto do reino foi desmantelado.

A Catalunha, durante o século XIX, experimentou novamente uma fase de grande pujança econômica, o que abriu caminho à revitalização da identidade cultural histórica catalã e encorajou o florescimento de um nacionalismo verdadeiramente catalão, que foi ganhando adeptos ao longo de todo o século seguinte. É desse período a fundação do Futbol Club Barcelona, time de futebol que representa o mais puro espírito ufanista do povo catalão.

Em 1931, o condado pôde experimentar mais uma vez uma janela de autonomia, que durou apenas cinco anos e culminando com um novo período de opressão iniciado pela estouro da Guerra Civil Espanhola (1936 – 1939).

Os catalães se aliaram às forças republicanas contra o General Francisco Franco e foi um dos principais palcos da resistência antifascista, porém acabaram derrotados mais uma vez.

A vitória do regime Franquista em 1939 deu lugar a mais de três décadas de ditadura militar e a uma nova supressão da autonomia, cultura e língua catalãs. Milhares de opositores foram executados e outros milhares foram presos e torturados durante o ‘reinado’ autocrático de Franco.

Com a queda da ditadura, os catalães restauraram o seu estatuto autônomo,  o catalão foi novamente reconhecido como língua oficial do território, em 1979, e a Catalunha partiu para a consolidação da sua identidade, tradição e culturas únicas, se beneficiando da transição democrática, do turismo e, posteriormente, dos Jogos Olímpicos de Barcelona (1992) e do próprio clube de futebol da cidade condal – o FC Barcelona – para assumir com orgulho a singularidade da existência catalã e o seu desejo de autodeterminação.

Més que un club

Poucas coisas simbolizam mais para um catalão o orgulho de sua nação do que a sua seleção. O Barcelona é encarado desta maneira por muito de seus adeptos. Fundado em 1899, pelo multiatleta suíço, Joan Gamper, é o primeiro clube de futebol enraizado na Catalunha, tendo como cores originais as do Brasão de Armas da região.

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Foto: Joan Gamper/ Divulgação FC Barcelona

Durante os muitos anos de repressão, que tentavam relegar ao ostracismo o idioma e a cultura típicos do território “insubordinado”, o Barça foi o símbolo por excelência dos interesses e sentimentos da Catalunha, defendendo seu povo e na sempre luta pela democracia.

Essa orientação política do FC Barcelona rendeu inúmeras represálias por parte das autoridades espanholas e durante a ditadura de Primo de Rivera, o clube foi fechado durante seis meses no início dos anos 1930.

A perseguição continuou com a chegada do general Franco ao poder, sendo um exemplo desta repressão, a execução do presidente do clube à época, o deputado catalão, Josep Sunyol, por fuzilamento.

Ao término da Guerra Civil, em 1939, a ditadura instalada quis acabar com a representatividade social do clube. Obrigou o Barça a ‘espanholizar’ o nome e tirar as quatro faixas da bandeira da Catalunha do seu escudo.

Apesar da insistência e do constante flagelo da ditadura, no final dos anos 60 o clube tentou recuperar parte de sua razão de ser, como bastião da cultura catalã, como ficou claro num discurso do presidente Narcís de Carreras, que é a pessoa que cunhou aquele que viria a ser o slogan do clube:  “Més que un Club”, em 1968.

Com a morte de Franco, em 1975, o clube teve a possibilidade de retomar de maneira integral seu compromisso social, além de criar outras formas de apoio para ações beneficentes, que mais tarde se consolidariam com a criação da Fundação FC Barcelona. Com o recente fenômeno da Globalização, o Barça ampliou esse mesmo compromisso por todo o planeta, de maneira especialmente significativa a partir do acordo com a Unicef, em 2006, que era uma maneira de expressar que um clube esportivo não pode viver sem se preocupar com os problemas da sociedade, principalmente com os problemas vividos pelas crianças de todo o planeta.

Por tudo isso, o Barça se converteu ao longo dos anos em muito “Més que un Club” tanto na Catalunha como em todo o planeta ao participar de forma direta em múltiplas iniciativas culturais, sociais e solidárias, cultivando milhões de torcedores ao redor do planeta tanto pelo futebol envolvente, quanto pela representatividade humanitária da agremiação.

 

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