#ACERVO2L – Futebol e o populismo argentino: uma luta entre peronistas e antiperonistas por uma vitória no mundial

Um líder carismático que teve grande apoio popular, uma mulher que inspirava todo um país, vários momentos de instabilidade política, diversos golpes militares e a afirmação de uma identidade nacional através de uma polêmica vitória no esporte mais popular do país

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Foto: Juan Domingo Perón/ Periódico El Cronista

Populismo (s.m.): prática política em que se prega a defesa dos interesses das classes de menor poder econômico, a fim de conquistar a simpatia e a aprovação popular através de políticas governamentais.

Essa definição retirada do dicionário será essencial para entender a importância de um movimento político – quase messiânico – que se desenvolveu na Argentina durante as décadas de 1940 e 1970 e que até hoje ainda possui força no cenário político portenho. O #Acervo2L desta semana destaca a importância do embate entre peronistas e antiperonistas para o futebol argentino.

O ano era 1946, após quase 20 anos de um panorama político conturbado, a Argentina voltava a eleger um presidente de maneira democrática. Seu nome? Juan Carlos Perón. Seu nome denominou uma corrente política que está presente na Argentina desde sua posse há 72 anos até os dias atuais.

Ascensão e queda do Populismo à Argentina

O conhecido político portenho esteve presente em diversos papéis durante a década de 1930 na política dos nossos hermanos. Conhecida como década da infâmia, os anos 30 foram marcados por um golpe político que colocou grupos conservadores, conhecidos como Concordância, no poder, que se caracterizavam pela repressão violenta aos seus opositores e a manutenção do poder obtida através de sucessivas fraudes eleitorais.

No ano de 1943, a Concordância colocou na presidência, Ramon Castilho, que seria o último dos presidentes apoiados pelo grupo conservador. Em seu governo, o coronel Juan Domingo Perón liderou a pasta do Ministério do Trabalho. Utilizando-se de métodos políticos voltados aos menos abastados, o militar incentivou a ampliação dos direitos trabalhistas e a organização dos movimentos sindicais argentinos.

Em 1946, graças a seu apelo popular, conseguido através de sua atuação no ministério anterior, Perón instituiu uma política baseada no estabelecimento de uma relação direta entre as massas e uma liderança política (normalmente um líder de grande carisma, personificado na sua figura), sem a mediação das instituições políticas representativas, como os partidos ou até mesmos a burocracia estatal, ou até mesmo contra elas.

Através da perspectiva populista supracitada, o governo atuava diretamente na economia, monopolizando o comércio exterior e nacionalizando outros vários setores da economia. O poder de intervenção estatal aliado ao notável desenvolvimento econômico trouxe um cenário marcado por baixos preços e altos salários. Essa política era classificada pelos Peronistas como “justiça social”.

Porém, os elementos paternalistas e nacionalistas característicos de Perón andavam de mãos dadas com um governo repressor que não aceitava protestos públicos e aniquilou a oposição política através de um sistema fundamentado em um partido único.

Em 1951, Perón foi reeleito, mas seu governo não conseguiu resistir a uma crise econômica que se abateu sobre a Argentina no mesmo ano. O papel intervencionista do Estado acabou gerando uma enorme dívida pública, tornando-o incapaz de desenvolver a indústria pesada e de bens de consumo, carro-chefe da economia. A inflação e a estagnação da economia chegaram com força, o que forçou o presidente, antes conhecido como “amigo dos descamisados” a tomar medidas impopulares, como o congelamento de salários.

Com a chegada da austeridade econômica ao populismo argentino, um clima de profunda instabilidade se instalou nos arredores da Casa Rosada. Denúncias de corrupção vinculadas a Perón começaram a ser veiculadas na mídia, o que abalou suas relações com a Igreja, fator que desgastou de maneira irreversível sua relação com os argentinos, majoritariamente católicos. Por fim, o golpe derradeiro para a popularidade do antigo coronel foi a morte de sua esposa, Eva, que era considerada a verdadeira alma do trabalhismo portenho.

A soma de todos estes fatores contribuiu para que em setembro de 1955, Juan Domingo Perón sofresse um golpe político. Fragilizado, o governante renunciou e exilou-se na Espanha. A instabilidade política foi a marca do governo militar que substituiu o ex-coronel até a década de 1970.

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Foto: Héctor Cámpora/ Diario Contexto

No início dos anos 1970, os militares sinalizaram para entregar novamente o governo aos civis. Em maio de 1973, o candidato peronista Héctor Cámpora tornou-se o novo presidente argentino. O eleito passou a articular forças para que Juan Perón retornasse ao posto presidencial. Dessa forma, em 13 de julho do mesmo ano, Cámpora renunciou ao posto para que novas eleições viessem a trazer o emblemático líder de volta ao poder.

Sem o mesmo vigor de outrora, Perón pouco conseguiu fazer em sua segunda estadia na Casa Rosada,  vindo a falecer em 1974.  A sua terceira esposa, Isabelita, o substituiria, mas sem sucesso para acalmar os ânimos da população. Os problemas econômicos e a instabilidade do cenário político abriram portas para que, dois anos depois, um novo golpe militar chegasse ao poder.

E o futebol, onde se encaixa nisso tudo?

Em abril de 1954, a Avenida Corrientes, uma das principais vias de Buenos Aires, foi palco de um desfile que envolveu os maiores esportistas argentinos. Aproximadamente 50 mil atletas das mais variadas modalidades estiveram presentes, entre eles, o grande astro do automobilismo, Juan Manuel Fangio, participou pilotando sua Ferrari, assim como algumas estrelas do futebol argentino, como Labruna e Loustau, entre tantos outros. A multidão, formada por jovens e adultos, todos vestindo trajes esportivos, lotou a avenida. O evento contou ainda com discursos de autoridades políticas e exibições de aviões da aeronáutica que formavam com fumaça o nome do presidente nos céus da capital.

A identificação com o esporte e sua importância no âmbito do governo peronista era tal, que o presidente era considerado como o ideal de esportista argentino. Perón, aliás, dizia ter, durante sua juventude, praticado diversas modalidades esportivas como tiro, pólo, natação, futebol, esqui, basquetebol, esgrima e boxe. Efetivamente fora campeão nacional de esgrima de 1918 a 1928, sendo selecionado para competir nos Jogos Olímpicos de 1924.

Curiosamente, durante o período peronista, o futebol argentino não esteve presente em muitas competições internacionais. Uma greve dos jogadores profissionais, em 1948, desencadeou um êxodo de estrelas para a Colômbia. Como desdobramento, a seleção argentina não participou do campeonato Sul-americano de 1949 e da Copa do Mundo de 1950.

Com a queda de Perón em 1955, todo e qualquer resquício do peronismo foi imediatamente suprimido. A seleção de basquete campeã da primeira Copa do Mundo, em 1950, foi desmanchada; a delegação olímpica foi reduzida de 134 pessoas em 1952 para 37 em 1956. No futebol, por sua vez, o Estudiantes de La Plata voltou hegemônico no futebol portenho e conquistando posição de destaque na América do Sul.

Após mais de 15 anos de regime militar, os argentinos tinham os ânimos exaltados, no início da década de 1970. O confronto ideológico entre peronistas e antiperonistas era latente.

No esporte mais popular do país, as discussões também eram acaloradas, mas não tinham a ver com a situação política da Argentina. Os hermanos viam o Brasil assumir a posição de principal potência mundial do futebol, enquanto que do outro lado da Bacia do Rio da Prata, os títulos a nível mundial, não passavam de mero sonho.

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Foto: Comemoração dos 45 anos do tricampeonato da Libertadores /Divulgação Estudiantes (2015)

No continente sul-americano, os argentinos continuavam fortíssimos. Tinham na grande geração do Estudiantes de La Plata, tricampeã da Copa Libertadores da América (68, 69 e 70), a sua principal força. Com um estilo de jogo diferente daquele tradicionalmente praticado no país, os pincharratas apresentavam um futebol prático e eficiente para alguns, feio e até desleal para outros, bastante semelhante ao apresentado pelos ingleses na sua vitória na copa de 1966. A equipe de La Plata parecia a muitos um modelo necessário para a superação de consecutivas derrotas no cenário internacional. Para outros, era a negação da história do futebol do país.

Os peronistas não tinham dúvidas. Ao retornarem ao poder em 1973, resgataram o espírito essencial do futebol albiceleste. Para eles, o futebol tradicional argentino deveria ser mantido como algo essencial à identidade do país. O que convergia com sua visão política nacionalista e anti-imperialista. Assim, mesmo com as sucessivas derrotas, os argentinos insistiram na defesa do clássico toque de bola envolvente que sempre caracterizou o futebol portenho.

Porém, o mundial de 1974 escancarou mais um fracasso da seleção. A gana pelo título se tornava quase uma obsessão. Especialmente, porque o país finalmente sediaria um mundial – o de 1978 -, honraria perseguida pelos argentinos desde 1930. Dessa forma, era inconcebível que essa questão se tornou mais importante ainda. Afinal, o país sediaria o mundial seguinte, e seria inaceitável repetir as más campanhas que a Albiceleste costumava fazer em suas participações em mundiais. O que os levou a uma encruzilhada: Insistir no estilo clássico argentino ou buscar um estilo mais pragmático?

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Foto: Cesar Luis Menotti/ Divulgação FC Barcelona

A primeira escolha prevaleceu. O treinador César Luis Menotti foi o escolhido, credenciado pelo grande time que montou no modesto Huracán, onde conquistou o título argentino de 1973. Os peronistas apoiavam com entusiasmo aquele time repleto de jogadores altamente técnicos (Houseman, Brindisi, Babington, Carrascosa), que levaram o pequeno Globito de Parque Patricios ao título – o único do time na elite profissional argentina) praticando um futebol muito vistoso.

Além dos méritos futebolísticos, Menotti também foi auxiliado por ter conexões com o peronismo, que estava no poder. O velho general Perón havia finalmente retornado ao país e sido eleito presidente em 1973, após renúncia de seu partidário Héctor Cámpora. Faleceu durante a copa de 1974. Foi substituído por sua terceira esposa, Isabelita. Vários políticos do partido patrocinaram a candidatura de Menotti, incluindo Paulino Niembro, deputado e sindicalista ligado à direita peronista.

Porém, no ciclo seguinte, tudo mudou. Em 1976, um golpe civil-militar apoiado pelos Estados Unidos, como foi a tendência em todo o Cone Sul, derrubou Isabelita e colocou no poder uma sanguinária ditadura, encabeçada pelo general Jorge Rafael Videla, que perseguiu o peronismo de forma violentíssima.

Os militares fizeram questão de se aproveitar do mundial de 1978 como um grande feito do regime. A conquista que ocorreu a partir de diversas situações, no mínimo, estranhas. O principal exemplo é a partida contra o Peru, na qual, os argentinos precisavam vencer para se classificar às fases decisivas e acabaram aplicando uma goleada vexatória ao time andino por 6 a 0.

Jogadores mais ligados à oposição ao regime, como o goleiro Gatti, do Boca Juniors, e o lateral Carrascosa, do Huracán, titulares da equipe, chegaram a abandonar o elenco da seleção às vésperas do mundial de 1978, por não quererem ser utilizados pela ditadura. Enquanto isso, defensores dos generais no campo do futebol não perdiam tempo. O belo futebol que era a essência do ‘Menottismo’ ganhava outro sentido. A qualidade técnica, pela qual os argentinos se notabilizaram foi substituída pelo alinhamento político-ideológico de parte dos atletas.

A copa foi vendida ao mundo pelo regime ditatorial argentino como uma das maravilhas provenientes do novo governo portenho. Enquanto isso, uma cena muito comum era a captura de opositores do regime para serem torturados e assassinados em um dos maiores centros de repressão existentes no país: a ESMA, a Escola de Mecânica da Armada, que ficava próxima ao Estádio Monumental de Nuñez.

Hoje, onde ficavam as locações da ESMA, está construído um museu dedicado aos direitos humanos.

O Peronismo atual

Após o fim da ditadura, em 1983, Raúl Alfonsín foi eleito presidente da Argentina para reconduzir o país à experiência democrática.  Ele foi sucedido por Carlos Menem, em 1989, que deu sequência a mais uma linhagem de governantes influenciados pelo Peronismo.

Após Menem (1989-1999), foram eleitos Eduardo Duhalde (2002-2003), Nestor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015).

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Foto: Mauricio Macri/ Clarín

O atual presidente argentino, Mauricio Macri, venceu as eleições com o objetivo de estabelecer uma política antiperonista e tem adotado uma postura liberal, com redução da cobrança de impostos e manutenção de um estado minimamente funcional, propostas que diferem muito do que pregava Perón e do que defendiam seus sucessores.

 

 

 

 

 

 

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