Instituições culturais do futebol: A pelada.

“Corre pra lá! Toca aqui! Esse bicho segura a bola demais. Lá vem o pior da pelada jogar no nosso time, começamos com um a menos. A bola passa, você não! O moleque é liso. Tomou nas canetas.”

Quem nunca viu ou ouviu esses jargões no baba? Da quadra do condomínio ao campinho no fim da rua ou até mesmo no asfalto quente que deixa os pés cheios de bolhas, a pelada é uma instituição criadora de craques, de perronhas e de sociabilidade.

É na pelada que os projetos de craques aparecem. Mas é lá também que os indivíduos que não possuem os dotes do esporte bretão se fazem conhecer. Quem nunca tirou sarro com o Mário ruim de bola do 106? Ou até mesmo quem nunca quis no seu time o enfileirador de zagueiros que joga com a 10 para finalmente pode vencer todas no dia e sair provocando os demais? É na pelada do fim de semana, do fim de noite, de madrugada, que desenvolve-se um dos mais ricos espaços de conhecimento e aproximação entre as pessoas. Na pelada cria-se amigos, mas também rivais. Parceiros eternos e inimigos mortais. Afinal de contas, quem ainda não possui raiva do time da rua de baixo que por muitas vezes encerrou nossa sagrada diversão na pancadaria ou na intimidação?

O certo é, que nesses espaços de muita peleja e de simulação dos combates do espetáculo futebol, muitos de nós nos conhecemos e desenvolvemos amizades que perduram até hoje. O amigo da pelada pode muito bem virar o companheiro das cervejas que se toma após os combates futebolísticos e desse momento do divertimento para o espaço das confissões temos um pulo, que muitas vezes todos nós já fizemos. É como se diz nos ditos sagrados da desportividade amadora: “o melhor do racha é a resenha!”

Outro ponto importante é a singular possibilidade de sentir na pele o que os grandes craques vivem nas suas decisões. Aquele passe rasgando ao meio a defesa adversária, aquela dividida que lembra o grande zagueiro Baresi ou até mesmo aquele gol perdido cara a cara com o goleiro que o nosso centroavante nunca perde. É tudo palpável, está ao nosso alcance!

Pelo sim, pelo não, é correto e tão verdadeiro quanto os adágios míticos que as peladas cumprem um papel que esgota os adjetivos: Fulcral, Consagrador, Capital… seja qual for o termo utilizado, nada se aproxima da sensação de bater um pênalti na decisão do torneio de bairro. Ali, meus amigos o mais reles peladeiro consegue compreender a miséria de Roberto Baggio ou a alegria de Taffarel. É o verdadeiro teatro da vida encenado no nosso frágil cotidiano.

 

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